sexta-feira, 2 de outubro de 2020

[0024] "A cor do tempo", livro de Ricardo Jorge Claudino – ou o tempo como cor e objecto de memórias

Com chancela da editora Cordel d'Prata e saído por ocasião da Feira do Livro deste ano, o livro de poemas "A Cor do Tempo" de Ricardo Jorge Claudino revela-se obra madura e reflectida, não obstante ser o primeiro de sua autoria – o que não surpreende, pois este jovem farense com fortes ligações ao Alentejo não é propriamente um novato no meio, tendo já vasto material divulgado em revistas da especialidade e jornais regionais, em experiências que datam da adolescência e agora frutificaram.

São seis dezenas de trabalhos de temática diversa, onde se nota forte componente pessoal de memórias de momentos ou assuntos vividos. Disso são exemplo, entre muitos outros, poemas como "Casa no campo", "sinónimo de paz e do cante dos passarinhos", "As oliveiras falam", com suas "palavras sábias", "Teatro infantil", relembrando os cheiros e as cores do pó de palco pisado anos atrás, "Amesterdão e eu", de acolhedora e absorvente temporada profissional ou "Soneto imperdoável" em que recorda os "frajais" (ferragiais) semeados pelo avô, evocando uma das muitas e saborosas corruptelas linguísticas em que a grande província do sul é farta. E já que de sonetos falamos, assinalemos os muito interessantes dois exemplos vigentes, este e "Soneto condenável", género poético assaz descurado nos tempos presentes que ele adoptou com sucesso. Também é de salientar "Escadaria", curioso trabalho de poesia visual, discreto e acertado.

Ricardo Jorge Claudino
Quanto ao tema que dá título à compilação, ele surge logo no primeiro exemplo, cartão de visita do conjunto, de facto todo ele muito visualizável através de descrições simples mas eficientes. Neste poema de apresentação, as alusões à slow-life campestre e citadina é recorrente, quer nas referências ao "assobio do rouxinol apaixonado", às "formigas que correm atrás de uma migalha de pão", ou aos passeios pela calçada portuguesa, pisando apenas as "pedras mais escuras". Idêntico roteiro também se vislumbra noutros exemplares, caso de "Perder para ganhar", quando o autor fala dos momentos em que se esquece "nas travessas das mais pequenas aldeias alentejanas", onde o tempo não conta e onde nos confrontamos com essa "gramática de coentro e cal, geometria do branco e do azul" de que o cantor e poeta Vitorino fala. 

Plenos de sabedoria e exaltantes de amor à escrita e à leitura, são os poemas "Livro aberto", nesse apelo que diz  que "As palavras foram feitas / para serem ditas / e os livros para estarem / abertos" e "Quando o poeta morre", em que Claudino esclarece que quando o vate fenece não vai para o céu  mas "ganha asas na terra [e] voa nas suas palavras". 

É pois de reter este livro, perpassado por lirismo suave, tanto campesino como urbano, completado pelos desenhos de idêntica índole de Cristina Aurélio e Fernando Madeira, um dos quais serve de capa. Após a prometedora peça inicial, resta-nos aguardar com expectativa a continuidade da obra de Ricardo Jorge Claudino. 

sábado, 12 de setembro de 2020

[0023] Sessão de autógrafos de Ricardo Jorge Claudino na Feira do Livro de Lisboa (Pavilhão B31, 13 de Setembro, 14h00) - "A Cor do Tempo"

Ricardo Jorge Claudino nasceu a 10 de Abril de 1985 em Faro, transportado por um bando de cegonhas oriundas de Reguengos de Monsaraz. É licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Informação e Sistemas Empresariais. Em 2001 inicia a sua actividade profissional como programador informático, a qual exerce até ao presente, tendo passado por várias multinacionais portuguesas e holandesas. Com apenas 15 anos de idade escreve os seus primeiros poemas; mas ficam guardados. Só em 2019 decide acordar a sua poesia e logo participa na antologia A Vida em Poesia IV, publicada pela Helvetia Éditions. Conta também com publicações nas revistas Gazeta da Poesia Inédita e NERVO. A Cor do Tempo é a sua primeira obra publicada. Por casamento, está ligado a uma família de Vila Viçosa.

sábado, 22 de agosto de 2020

[0021] Pepita Tristão com nova obra literária. Apresentação de "Histórias de Amor e de Morte" decorrerá a 19 de Setembro, na Casa Sommer, em Cascais.

"Histórias de Amor e de Morte", da autoria de Pepita Tristão, e chancela da Emporium Editora, vai ser apresentado no próximo dia 19 de Setembro, pelas 16 horas, na Casa Sommer, em Cascais.

A cerimónia contará com a participação da autora do prefácio, a socióloga e escritora Maria Helena Ventura, que apresentará a obra.

Antes, no dia 12 de Setembro, a autora estará presente na Feira do Livro de Lisboa, no espaço da Editora Emporium, onde irá protagonizar uma sessão de autógrafos entre as 14 e as 15 horas.

Esta edição teve o apoio da Câmara Municipal de Cascais.
"Histórias de Amor e de Morte" é um livro povoado por mulheres que sonham, vivem sofrem e recomeçam ao longo de 16 contos anacrónicos, que têm por pano de fundo Portugal, as suas lendas, usos e história, com diálogos onde o real se funde com o onírico urdindo tramas de leitura deliciosa. Um corrupio de aventuras, ora divertidas ora dramáticas, que retratam também a evolução das mentalidades, através dos tempos.

domingo, 5 de julho de 2020

[0019] PÁG. 100/101 (2) - "Considerando os Filósofos", Carlos Aurélio

O livro tem capa do pintor e escultor Espiga Pinto (Vila Viçosa, 1940 - Porto, 2014) e ilustrações e fotografias do autor (Vila Viçosa, 1956 - professor, pintor, fotógrafo e filósofo, com várias exposições e livros publicados). Foi editado pela Tartaruga, Chaves, em 2008. Como as páginas 100/101 apresentam apenas imagens, desta feita mostramos a página 102. Não é divulgado o nome da pessoa a quem o livro foi dedicado.



Páginas 100 e 101 - Clique nas imagens, para as ver melhor

sábado, 20 de junho de 2020

[0014] PÁG. 100/101 (1) - "O Velho e o Mar", Ernest Hemingway

A primeira edição portuguesa, dos Livros do Brasil, Lisboa, é de Novembro de 1956. A original fora de 1952, da Charles Scribner's de Nova Iorque (em Lisboa, um exemplar atingiu esta semana em leilão a quantia de 720 euros, mesmo sem a sobre-capa e não "capa", como se diz na imagem que apresentamos). 

Acresce que a edição portuguesa ostenta na capa e no interior ilustrações de Bernardo Marques (1898-1962), pintor, ilustrador e caricaturista modernista e é enriquecida com tradução e prefácio de Jorge de Sena.


1.ª edição americana





Clique nas imagens, para as ver melhor

quinta-feira, 7 de maio de 2020

[0013] A REALIDADE DO LIVRO, por Nicolau Saião


Nicolau Saião

Intervenção do autor na sessão que lhe esteve destinada, precedendo a leitura de trechos de obras suas, na Bienal Internacional do Livro de Fortaleza (Brasil, 2008), na qual foi um dos representantes de Portugal

No seu excelente ensaio de divulgação “O Homem e o Livro”, publicado pelo Prof. Bento de Jesus Caraça na saudosa “Biblioteca Cosmos”, conta-nos M. Iline que, na longa caminhada para os tempos modernos, o livro foi precedido pelo objecto simbólico e mesmo pelo próprio Homem – como aedo, como trovador, como livro vivo.

O volumezinho é extremamente curioso e merece toda a nossa boa atenção. A par de nos fornecer inúmeros dados interessantes, ameniza-se narrando-nos diversas histórias pitorescas como a do comerciante Itelius e os seus escravos-livros, e outras que não me cabe recordar aqui.

Habitantes que somos deste século tolhido e limitado por ilusões e artifícios, será talvez mais útil, por ora, tentar compreender quais os caminhos que o Homem tem defronte enquanto leitor e enquanto presença viva e raciocinante face aos homens que para ele escrevem, para ele publicam, distribuem e vendem – nem sempre correspondendo com eficácia e exemplaridade ao seu desejo de mais saber e mais esclarecimento, que o mesmo é dizer mais conhecimento e mais realidade.

Não entra no âmbito deste texto uma dissertação ampla sobre o problema dos chamados “mass-media”, os célebres meios de comunicação de massa, que vêm a ser: a rádio, a televisão e os jornais. Mas justifica-se, por razões óbvias, que mesmo ao de leve para ele chamemos a atenção do leitor, recordando que já de há muitos anos pensadores como Umberto Eco, Marshall Mac Luhan, Herbert Marcuse, Gérard Legrand, Roland Barthes e Fernando Savater, entre outros, nos andaram a alertar a consciência para o facto, perturbante, desses ”mass-media” procederem mais ou menos subtilmente a uma crescente esterilização do nosso espírito.

Com efeito, caracteriza-se o tempo em que vivemos por uma presença obsidiante de imagens e de signos – na maior parte dos casos destituídos de valor – que arrastam verdadeiras obsessões e angústias por intermédio das quais se promove a inserção do Homem em modelos sociais uniformes e unidimensionais, visando claramente a sua inércia ante cripto-autoritarismos ainda que de fachada democrática. Assim sendo, é lícito perguntar-se: que papel pode o livro desempenhar na sociedade actual, que deve então ser o livro para o comum dos cidadãos?

A primeira potencialidade do livro é ser, duma maneira marcante e na contramão do que eles têm de imediatista e manipulatório, o anti-rádio, o anti-jornal, o anti-televisão.. Será, evidentemente, outras coisas mais profundas, mas se antes de tudo não fôr isso será muito pouco.

Ficará mais explícita a anterior afirmação se nos detivermos por instantes no excerto de um artigo de análise de Claude Julien, vindo a lume no “Mundo Diplomático”, onde nos diz o conhecido publicista: “Porque recebe do mundo inteiro, a intervalos muito curtos, uma grande quantidade de notícias, o cidadão de uma sociedade industrializada pode julgar-se informado. Na realidade, é constantemente submergido por uma vaga de informações rápidas, efémeras, muitas vezes superficiais e desligadas do seu contexto histórico, cultural e económico – a ponto de os factos, as palavras e as imagens frequentemente perderem o seu significado profundo. Limitados apenas aos meios de comunicação de massas, o Europeu e o Americano podem tomar conhecimento de um fastidioso volume de notícias discordantes sem, no entanto, adquirirem uma melhor compreensão da sociedade em que estão inseridos e da história de que são agentes”.

As razões que assistem a Claude Julien são, quanto a mim, tão claras e evidentes que não necessitam de corroboração por meio de mais exemplos. Concluamos, sem nos demorarmos demasiado neste passo, que o livro – se moderadamente liberto duma soma de condicionalismos que entravam a sua difusão e a sua divulgação – é a forma mais eficiente, mais nobre e mais bela de impedir a verdadeira castração mental a que o homem do quotidiano, se mal se precata, está sujeito. O livro ampara-nos no acesso a um mundo mais real porque mais exacto. Ler um livro é sempre um acto de humana solidariedade que com frequência atinge níveis muito profundos. Se o artista, o escritor, desperta em nós sentimentos de consideração e de estima, isso deve-se ao facto de, no nosso íntimo, nós bem sabermos que o homem que escreve – e não que escrevinha – está ao nosso lado e ao lado dos que sofrem as   disfunções sociais e quotidianas e desejam mais pureza e mais verdade  prática.

Embrenhando-se nos mundos criados pelo escritor autêntico (aquele que não escreve com intenções de crua propaganda ou de notoriedade malsã) o leitor recupera o seu estatuto de ser pensante e participante, de ser que aspira à inteira dignidade tantas vezes negada, com frieza ou cinismo, pela rotina social erigida em dogma por sectores particulares ou mesmo oficiais. É que ler livros, na verdade, ajuda-nos a ascender à comunicação com os outros e connosco, humaniza-nos verdadeiramente. É como que uma operação alquímica que no cadinho dos livros calcina e faz erguer a matéria nova e saudável, filha da luz dispersa nas frases, nas páginas, nas folhas, ajudando-nos a entender a Vida –pois que o saber de experiência feito só é valioso e autêntico se caldeado com o conhecimento intrínseco dos extensos e complicados (porque profundos) processos motores do Mundo.

Humilde ou rico, simples ou de cuidada apresentação, vindo da prateleira elegante duma livraria moderna ou do obscuro escaparate de um qualquer alfarrabista, um livro é sempre uma presença fraternal, uma companhia inestimável na travessia das vastas florestas do hábito, dos pântanos desmesurados do dia-a-dia mecanizado.

A história do livro entrelaça-se intimamente, aliás, com a história do Homem. O livro tem sofrido a par com o Homem. A destruição de livros, que é um seguro indício da destruição de homens – atente-se nas depredações cometidas em bibliotecas durante guerras de invasão – diz-nos bem dos sentimentos e das razões bestiais dos poderosos autoritários ante a verdade potencial inerente aos livros. O califa Omar, que mandou destruir por fanatismo a Biblioteca de Alexandria com os seus milhares de livros raros, tem um émulo perfeito nesse nefando cardeal Ximenes que, aquando da conquista de Granada, condenou cinco mil livros valiosos a perecerem nas chamas. E que dizer dos autos-de-fé perpetrados publicamente pelos nazis contra livros de Heine, Brecht, Arnim, Lichtenberg ou Stefan Zweig ou, nas caves da Lubianka para dar menos nas vistas da opinião pública internacional, pelos fascistas vermelhos contra obras de Mikail Bulgakov, Isaac Babel, Boris Pasternak ou Bruno Schulz? Ou a destruição efectivada, por agentes da Gestapo, dos manuscritos do grande poeta Saint-Pol Roux, que morreu de desgosto? 

Os exemplos, infelizmente, poderiam multiplicar-se – e já não falamos das tentativas de marginalização e ocultação, levantando no mínimo dificuldades financeiras impeditivas – mesmo aqui e agora no nosso país tendencialmente democrático, em relação a autores desenquadrados ou que não se pautem pelas “obrigatoriedades” que o regime desejaria institucionalizar.

É imenso o rol da hostilidade e até do ódio ao poder poético e salutar, portanto libertador, dos livros.

Ao encerrar esta digressão, que desejei comunicativa, resta-me pedir aos que me estiveram seguindo com menor ou maior atenção: leiam. Há tanta coisa maravilhosa para descobrir ou para saber!

Um livro pode eventualmente inquietar, mesmo magoar – porque nós somos seres humanos e, por isso, passíveis de mágoa e de inquietação. Mas repare-se que até dessa mágoa e dessa inquietação pode nascer, e geralmente nasce, beleza e conhecimento, anterrostos da possível sabedoria.
Os quais, acrescentando-se a muita outra sabedoria e beleza que constituem património comum, caberão um dia na Festa de construir um mundo outro – mais justo, mais verdadeiro e mais feliz.
                                                                     
Imagem de Nicolau Saião

sábado, 4 de abril de 2020

[0011] ...E de Livros & Livros trata este texto de Nicolau Saião


AS FRAUDES LITERÁRIAS

Pintura de Nicolau Saião

1. Neste caso, teatro de sombras, de silhuetas difusas, de hipóteses... De coisas muito reais deliberadamente colocadas sob o signo da aparente brincadeira que afinal tem a ver com os equívocos da literatura e das ainda mais equívocas circunstâncias circenses que por vezes lhe andam em torno.
Mas eu explico-me já.

De há uns tempos a esta parte, principalmente depois de haver sido “caçada” uma conhecida e talentosa plagiadora, tem sido razoavelmente falada no milieu nacional a questão das fraudes literárias. Das quais duas - se lhes podemos chamar fraudes - ficaram famosas no século que há 20 anos se finou (1). Refiro-me, como os de melhor memória terão já percebido, aos affaires de "A caça espiritual" (Rimbaud) e de "Gros Calin" – O lambe-botas, (Romain Gary/Emile Ajar). 

Já vamos dar-lhes uma rápida olhadela. Mas importará, em jeito de leve rol, referir que as chamadas fraudes se dividem em vários grupos, a saber: o plágio puro e simples (que tem sido o mais praticado muros adentro); o livro escrito com questionável qualidade mas valorizado por um “nome” de prestígio já a fazer tijolo; o livro de qualidade que todavia o autor nunca escreveu; o livro de qualidade, de facto escrito por um autor de renome mas atribuído a um desconhecido e que antes de ser premiadíssimo vários editores espertalhaços não agarraram com as quatro mãos. Ainda, numa estância subsidiária, o livro que simplesmente não existe (apenas composto por maravilhosos fragmentos bem artilhados) e o livro convincente mas criado de cabo a rabo com o único intuito de mostrar os limites do que se conhece sobre uma personalidade histórica (e há alguns bastante célebres: sobre Napoleão, Rasputine, Erskine Caldwell...). 

Falemos no caso do falso Rimbaud.

Certo dia, os eruditos académicos Maurice Saillet e Pascal Pia (que já havia editado falsos Baudelaires, Pierre Louys e Apollinaires...) disseram ao mundo que o arquifamoso e perdido "A caça espiritual" estava nas suas mãos. Começara a grande tourada... 

Imediatamente desmascarado como falso por André Breton, que se baseara apenas no conhecimento interior da obra rimbaldiana, a titarada arrastou pelos bas-fonds da ignorância, da jactância, da sobranceria académica e da tolice literata muitos dos "trutas" das letras francesas mais armados em arco. Afinal, a deliciosa brincadeira fora pensada e executada por dois actores/estudantes que tinham resolvido dar uma lição aos emproados.

Curiosamente, diz-nos um comentador do caso que apesar das evidentes provas dadas de caducidade mental e societária, os génios da crítica em causa continuaram a dispor de respeitabilidade, ainda que a sua credibilidade tivesse ficado muito abalada nos meios menos atoleimados.
Ou seja: o que por vezes parece contar (e por cá há maviosos exemplos) não é de facto nem o talento nem a seriedade estudiosa mas a classe de poder onde os pássaros bisnaus se incrustam (2).

2. Em 1973 a editora "Gallimard" recebeu um inédito intitulado "Gros câlin" ( O lambe-botas), relato prenhe de sustância, força, pundonor e novidade de escrita. Intimidada, porque o texto era de facto inovador e ia contra a corrente dos romances que a época e as vendas em montra festejavam, a publicação foi recusada.

Dias mais tarde é o "Mercure de France" que recebe o dactiloscrito. A sua responsável, Simone também de apelido Gallimard, pesados os prós e contras dá-o a lume. Olhado a princípio com certa incomodidade pela crítica, a pouco e pouco a obra impõe-se. Começa a sua marcha triunfal e é proposta para o prémio Renaudot. O nome do seu autor, Emile Ajar, por ser desconhecido começa a suspeitar-se que cobre um autor de gabarito: para uns, Raymond Queneau; para outros, Louis Aragon. E outros mais...

Mas um dia, o dia do lançamento de um volume depois célebre, "La vie devant soi", o mistério descripta-se: o seu autor Emile Ajar era o nome com que Paul Pavlovitch, o sobrinho do já galardoado e consagrado escritor Romain Gary (autor, por exemplo, de "Racines du ciel", "La promesse de l'aube", de "Lady L") dera a lume o livro que, logo a seguir, receberia o prémio Goncourt, venderia mais de um milhão de cópias e seria traduzido em 23 línguas...

Paul Pavlovitch torna-se uma coqueluche do "tout Paris": repórteres seguem-no de Monte Carlo até à Côte d'Azur, é visto nos restaurantes e bares de luxo com belíssimas actrizes e meninas finas do "demi-monde". Um lindo e saudável forrobodó que não desagradaria, suponho, a se calhar mais de metade dos austeros romancistas lusos...

No princípio de 79 outro livro de Ajar vem à luz: o belíssimo "L'angoisse du roi Salomon", novo êxito de criar bicho. E é então que em Março outro escrito da autoria de Romain Gary, "Vie e mort d'Emile Ajar" revela o imbróglio: os livros eram produto da sua pena, o sobrinho fôra apenas o actor escolhido para esta partida aos literatos – partida tanto mais gostosa se nos lembrarmos que o Goncourt não se pode atribuir/receber duas vezes...

Ou seja: então como resolver a bambochata? E os gabirús da literatice desesperavam! (3)

Na sequência deste seu último livro, pois logo a seguir, profundamente ferido pela morte de sua mulher e amada, a célebre actriz Jean Seberg, Gary suicidava-se - deixara um bilhetinho irónico colado na testa: "Diverti-me a valer! Até à vista e obrigado...".

Sem ser só por isto - mas também por isto, por esta manifestação de excelente senso de humor e de alto talento que a passagem dos anos não crestou - sugerimos vivamente, a quem porventura os não conheça, a leitura dos livros de Romain Gary. É um dos que, a par de Marcel Scipion, Jean Husson, Philip Claudel e Jacques Borel (ou seja, dos chamados “descentrados” das letras gaulesas) valem muito a pena ser lidos – com os olhos, com as orelhas, com a ponta da alma.

E com um leve risinho absolutamente colorido…

(1) De acordo com o Prof. Richard Jenkins, o século XX terminou de facto, com as suas reais vertentes económico-políticas mundiais, em 2008, com a falência do global Banco Lehmans Brothers e tudo o resto que se seguiu – desde o incremento do terrorismo islâmico às traquibérnias das cleptocracias pseudo-trabalhistas.
                                                                                                                                           
(2) Em suma e definitivamente: não é o saber que é poder, mas sim o simples facto de que os indivíduos que adquirem saber (geralmente nos estabelecimentos onde colam grau) e que portanto dispõem dele, pertencem ou seguidamente passam para a classe dirigente. Neles o saber é poder porque, neles, existe o poder para epigrafarem o seu saber. 

Um membro da classe dirigida, tendo saber, passará sempre, sim, por subversivo ou no mínimo desenquadrado: o seu saber pouco pode, uma vez que essa operacionalidade é de facto uma questão de classe. Nessa medida, é usual consentirem-lhe que fale ou faça. Mas como um simpático animal de companhia - o que ajuda também à estratégia.

(3) As mais graves fraudes, essas sim verdadeiras fraudes, são as que alegadamente e na opinião de diversos autores se processam em “estabelecimentos de ensino”, principalmente, onde de forma legitimada, mas obviamente irregular ou entrando mesmo na ilegalidade expressa, se alcandoram filosofias de vida e de cultura de forma capciosa ou intelectualmente desonesta, por intermédio da formação de verdadeiros konzerns de apparatchikis ou beatões académicos.   

Era assim no Leste fascista-vermelho, como o é noutros locais ditos democráticos mas onde geralmente os rebotalhos ideológicos desse sector continuam, bem camuflados, a dominar aproveitando a labilidade dos outros e servindo-se da sua superior organização.   

Como diz a frase célebre, “Não estudam e investigam para difundir o conhecimento, mas sim para impedirem o mundo de chegar a ele”. Dito de forma clara: para destroçarem o conhecimento, seja através da mentira se necessário seja do oportunismo que nesses locais parece vigorar sem temor.

Não nos iludamos: hoje, como dantes, a “Cultura” e tudo o que a rodeie são para esses camuflados ou expressos meras armas de propaganda, leia-se: instrumentos para atingir o poder discricionário. Aliás, eles nem o negam quando “em família”. Chamam a isso “actuação progressista”. Num livro seu o Dr. António Manuel Baptista iluminou a estratégia desses cavalheiros.

Note-se que esta deliciosa partida feita aos venturosos literatos foi apoiada por Robert Gallimard, confidente de Gary, pois nem todos os editores são estúpidos, velhacos ou cinzentões.

terça-feira, 10 de março de 2020

[0010] Dois livros de Adriano Miranda Lima, lançados quase em simultâneo, em Cabo Verde e Lisboa (AGORA, NA PRAIA)

L&L divulga hoje dois livros de Adriano Miranda Lima, saídos recentemente em Cabo Verde e Portugal, um sobre as tropas expedicionárias portuguesas a Cabo Verde nos anos da II Guerra Mundial e outro sobre o Dr. Baptista de Sousa, médico militar benemérito (colocado nas ilhas nesses anos de conflito) que os cabo-verdianos  ainda lembram com saudade, a ponto de o hospital de São Vicente ostentar o seu nome. Duas memórias a não esquecer.